A Mata Atlântica

Um dos mais ricos conjuntos de ecossistemas em termos de diversidade biológica do planeta, a Mata Atlântica se distribui da região litorânea aos planaltos e serras do interior, ao longo de 15% do território brasileiro. Em sua configuração original, a Mata Atlântica se estendia por 17 estados brasileiros, do Ceará ao Rio Grande do Sul, chegando a atingir a Argentina e o Paraguai.

A Mata Atlântica é formada por um conjunto de florestas tão diversas como as florestas ombrófila densa e ombrófila mista, a floresta estacional semidecidual, os campos de altitude e ecossistemas associados como manguezais, restingas e brejos interioranos, além de várias ilhas oceânicas. Tamanhas variações são reflexo direto da grande extensão ao longo da costa, de mudanças de altitudes, diferenças de solo, relevo e exposição a ventos oceânicos, que contribuem para a formação de diferentes paisagens, com processos ecológicos interligados. Assim como possui grande diversidade de paisagens, a região apresenta diferenças significativas no contexto socioeconômico de norte a sul de sua distribuição, exigindo diferentes estratégias de conservação em cada parte do Bioma.

A origem dessas ameaças se encontra na chegada dos portugueses ao país, em 1500, e os subseqüentes ciclos de destruição impostos à floresta: da exploração do pau-brasil, mineração do ouro e diamantes, criação de gado e plantações de cana-de-açúcar e café, até a industrialização, exportação de madeira e, mais recentemente, o plantio de soja e fumo que desalojam os últimos remanescentes do Bioma. Mas o modelo predatório representado pela expansão dos setores agropecuário, madeireiro, siderúrgico e imobiliário, acentuou-se mesmo no século XX, quando o desmatamento atingiu os níveis mais alarmantes. Hoje restam entre 12 a 16% da cobertura florestal original da Mata Atlântica (acesse o Altas de Remanescentes Florestais da Mata Atlântica para mais informações), com apenas 7% em melhor estado de proteção.

A devastação da Mata Atlântica é um reflexo da sua ocupação e da exploração desordenada dos recursos naturais. Os impactos de diferentes ciclos de exploração, a concentração das maiores cidades e núcleos industriais e também a grande pressão antrópica devido à alta densidade demográfica fizeram com que a área de vegetação natural fosse reduzida drasticamente. O grau de fragmentação florestal se deu de forma heterogênea no Bioma, dependendo dos fatores históricos de uso e ocupação do território. Entretanto, verifica-se que a paisagem em todas as regiões está reduzida a arquipélagos de pequenos fragmentos florestais em sua maioria menores que 50 hectares.

Na Serra do Mar, encontra-se a maior porção continua de Mata Atlântica entre o sul do Rio de Janeiro e o norte do Paraná, com os três maiores remanescentes totalizando, aproximadamente, dois milhões de hectares. O sul da Bahia, região central da Mata Atlântica, estão localizadas as maiores áreas contínuas da Mata Atlântica do Nordeste. Na Mata Atlântica ao norte do rio São Francisco, nenhum remanescente florestal excede 10.000ha e a maioria possui menos de 50 hectares, sendo a região mais crítica do Bioma. O contexto atual da Mata Atlântica exige atuação urgente, dependendo de ações e esforços integrados e coletivos e exigindo a mobilização geral da sociedade em sua defesa.

A acentuada devastação e fragmentação florestal fazem com que a Mata Atlântica apresente os mais elevados números de espécies ameaçadas de extinção no Brasil. Mais de 60% das espécies presentes na lista da fauna e flora ameaçadas e reconhecidas pelo Governo Federal têm distribuição na Mata Atlântica. Para os vertebrados terrestres (aves, mamíferos, repteis e anfíbios), podemos afirmar que uma em cada quatro espécies endêmicas ou restritas ao Bioma está ameaçada de extinção.

Apesar da situação crítica, a Mata Atlântica ainda abriga uma parcela significativa de diversidade biológica do Brasil, com altíssimos níveis de endemismo. A riqueza pontual é tão significativa que os dois maiores recordes mundiais de diversidade de plantas lenhosas foram registrados nesse Bioma (454 espécies em um único hectare do sul da Bahia). As estimativas indicam ainda que a floresta possua, aproximadamente, 20.000 espécies de plantas vasculares, das quais mais da metade são endêmicas, ou seja, só ocorrem na Mata Atlântica e em nenhum outro local do mundo. Mesmo sendo já bastante ocupada, a Mata Atlântica ainda é a região do país com o maior número de espécies novas descobertas para a ciência, mostrando a grande riqueza biológica ainda desconhecida na região. O significativo número de espécies restritas associado ao grau de degradação ambiental levou a indicação da Mata Atlântica como um dos hotspots mundiais de biodiversidade, merecendo atenção especial e apoio para a conservação por parte da comunidade global.

O significado dessa mata para cerca de 120 milhões de pessoas, mais de 70% da população brasileira, que vivem em seu domínio é incalculável. Nas cidades, áreas rurais, comunidades caiçaras e indígenas, a Mata Atlântica regula o fluxo dos mananciais de água, protege nascentes, regula o clima, a temperatura, a umidade, as chuvas, assegura a fertilidade do solo e a proteção de escarpas e encostas de morros. Rios e lagos compõem uma intrincada rede de bacias de importância nacional e regional, sendo que sete das nove maiores bacias hidrográficas do país estão na Mata Atlântica.

Com uma lei própria desde o final de 2006, que regulamenta a proteção e os usos sustentáveis da floresta, a Mata Atlântica depende de políticas de incentivo, pagamento por serviços ambientais e envolvimento de todos os segmentos sociais em sua conservação e recuperação, de proprietários rurais e gestores públicos a empresários e moradores de grandes cidades.